
Destaque dentro do segmento homenageado no Carnaval deste ano, o afoxé Filhos de Gandhy (foto), que comemora 60 carnavais, não conseguiu, a exemplo de entidades como Ilê Aiyê e Olodum, apoio suficiente para arcar com suas despesas. Apenas uma empresa privada patrocina o Gandhy, o que garante 30% dos R$ 1,5 milhão necessários para ir três dias para as ruas.
A pouco mais de 20 dias da folia, o presidente do Gandhy, Agnaldo Silva nutre a esperança de fechar novos patrocínios. Os únicos recursos garantidos são do Bradesco e mais R$ 110 mil do Programa Ouro Negro (governo estadual), além da expectativa de conseguir apoio da Petrobras.
O bloco deve, segundo Silva, ir para a avenida “com seis a sete mil associados”. Ele garante que as dificuldades “não ofuscarão o brilho das comemorações”, mas não adiantou surpresas, descartando especulações de que o turbante será azul ou dourado. A primeira curiosidade dos foliões será abrandada dia 16 de fevereiro, com a distribuição das fantasias, no Balbininho, com 18 adereços. Dia 18, data da fundação do afoxé, haverá missa, às 10h, na Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho.
Para outros afros, a situação é ainda mais desesperadora. Malê Debalê e Muzenza não têm nenhum patrocínio privado e contam apenas com dinheiro do programa estadual Ouro Negro. Para desfilar sábado, segunda e terça, o Muzenza precisa de R$ 420 mil, para fantasias de três mil foliões e cerca de 900 dançarinos, além de pagamento de banda, percussão e seguranças, entre outras despesas. Segundo dados enviados pela assessoria de imprensa da Secretaria da Cultura (Secult), serão destinados R$ 90 mil ao Muzenza.
O restante? “Somos mágicos do Carnaval”, brinca Santos. A imagem lúdica se desfaz perante a realidade: “Saímos do Carnaval com dívidas que vamos pagando ao longo do ano. Não sabemos até quando nossos credores vão aguentar isso”.
O Estado é também única fonte de renda do Malê. De acordo com a Secult, serão R$ 90 mil. O custo estimado é de R$ 360 mil, para sair três dias (sexta, sábado e segunda) e desfilar domingo em Itapuã, com o Malezinho, bloco infantil com mil crianças. “Desde que o empresariado profissionalizou a folia criou um círculo vicioso. Quem tem dinheiro contrata empresas de captação, populares ficam penalizados”, lamenta Miguel Arcanjo, vice-presidente.
O representante do Malê conta que já tentou este caminho, mas a proposta que recebeu foi “colocar uma negra de peito de fora para aparecer em todas as TVs”, lembrou, chateado. “Queriam que tirássemos a bateria do chão e acabássemos com a fantasia. Não podemos fazer isso, temos passado de luta política, social e racial”, defende Arcanjo.
O apoio da Petrobras, que será de R$ 1,2 milhão, segundo assegurou anteontem o gerente de Comunicação Institucional da empresa, Darcles Oliveira, é bem-vindo, porém Arcanjo faz ressalvas: “No ano passado, só recebemos o dinheiro em agosto”. Carlos Eduardo Santana, diretor de educação do Malê, reclama do “excesso de burocracia” na prestação de contas. “É dinheiro público e, por isso, é preciso prestar contas. Mas devem-se criar estratégias”, sugere Santana.
A reclamação tem fundamento em peculiaridades da entidade, que desenvolve um trabalho social junto à comunidade de Itapuã. Desde 2006, foi firmada parceria com a Secretaria Municipal de Educação. Parte da sede foi cedida para a criação da Escola Municipal Malê Debalê, que atende aproximadamente 250 crianças. Em contrapartida, à prefeitura cabe arcar com despesas de água e luz, professores, funcionários e manutenção do espaço. “Há dois anos a prefeitura não paga a conta de água. A dívida está em torno de R$ 2 mil. No ano passado, tivemos que negociar e pagar parte para podermos regularizar a situação e conseguir os documentos para lutar pelo patrocínio”, apontou o diretor.
Fonte: A Tarde
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